Rio de Janeiro, 04/02/2012 | 16:35
Trechos da entrevista exclusiva para Laura Greenhalgh no Caderno 2 - O Estado de S. Paulo, publicado no Estadao online em 11 de maio de 2010 | 6h 00
Audiência não será a preocupação?
Não pode ser a maior preocupação, até porque não é só a TV Cultura que vem perdendo audiência, o fenômeno é generalizado. Difícil hoje é definir o espírito da TV pública. Não se trata de uma discussão trivial. Exige esforço para se chegar ao conceito e, depois, ao detalhamento do que deve ser realizado. É um longo caminho. Uma das tentativas do Markun foi levar a TV Cultura para perto dos jovens, mas, será que é isso? Eu não sei, vamos discutir. Se você zapeia os canais, vê que a oferta de programação é imensa, coisas boas e ruins. Minha proposta é gastar algum tempo, quatro a cinco meses talvez, nessa discussão. E depois ir adotando mudanças, sem cair no aleatório. Até porque, na televisão, é importante preservar a estabilidade da grade.
O senhor não está mesmo contente com o que vem sendo feito hoje?
Eu e muitos membros do conselho. Não será fácil recuperar o prestígio da TV Cultura. Fala-se que é preciso recorrer à pesquisa de opinião para saber, por exemplo, que tipo de jornalismo a emissora deve fazer. Como fazer pesquisa sobre algo que nem nós sabemos? Vira jogo de espelhos, com definições vazias do tipo "vamos fazer jornalismo policial", ou "jornalismo cidadão" ou "jornalismo verde", só porque a pesquisa sugere.
Por que a emissora perdeu importância?
Por várias razões. A principal é que o setor televisivo se expandiu, ganhou um número imenso de participantes no sinal aberto e a cabo, fora a concorrência externa que vem pela internet. E houve a perda de importância, sim. O Roda Viva nasceu na ditadura. Além dele havia outros bons programas jornalísticos numa época dificílima. E hoje? O que temos? Também se fala da qualidade dos programas infantis da emissora, mas é preciso reconhecer que a concorrência cresceu muito, com canais especializados para tudo quanto é tipo de desenho animado. Sem falar das possibilidades da animação digital. Os estúdios da Pixar hoje batem qualquer dessas coisas.
Discutir o modelo de TV pública tem a ver com a instalação da TV Brasil?
É importante discutir modelos e o da TV Brasil não nos interessa. Porque ela funciona como uma estatal, bem diferente da TV Cultura, que é uma fundação pública de direito privado, que dorme e acorda pensando em como manter sua autonomia em relação ao governo. Tem autonomia política, administrativa, só não tem a financeira. Mas o item primeiro do seu estatuto trata de autonomia e seu conselho existe para que isso seja mantido. Quanto à TV Brasil, não me parece que venha ocupando espaço relevante. Nem em termos de audiência, nem em termos de programação.
Suas reflexões parecem estar muito voltadas para o jornalismo.
Não, a ideia é abrir a TV Cultura para criadores de todas as áreas. Mesmo no jornalismo, não penso que a saída seja o conselho contratar o jornalista X para fazer o programa A. Por que não abrir um concurso na área? Definiríamos alguns critérios e estimularíamos propostas. De repente, vamos nos deparar com a proposta de um jovem de 20 anos, sei lá. Eu não quero mexer em nada neste momento. Vamos investir em um tempo inicial, com ajuda de talentos, para definir o que se quer. Mudanças serão graduais. Nem tenho preparo para sair trocando tudo. O que tenho, e talvez seja uma vantagem, é capacidade de reunir especialistas que nos ajudem nessa etapa. Quero ser todo ouvidos.
Na secretaria, o senhor inovou o modelo de gestão ao contratar organizações sociais para administrar instituições públicas. E agora?
A gestão na Rádio e Televisão Cultura precisa ser aprimorada, começando por nos livrar da ambiguidade jurídica. Como já disse, esta é uma fundação pública de direito privado que não pode ser vista como autarquia. Precisa ter flexibilidade, liberdade e também dinheirinho para assegurar a autonomia. Quanto à secretaria, saí satisfeito com as reformas que fizemos no ensino de música, a construção de dois museus importantes, o Museu do Futebol e o Museu da História de São Paulo, muito feliz com a Biblioteca de São Paulo, com a organização dos festivais, o Prêmio SP de Literatura, as Fábricas de Cultura, uma escola de teatro, uma companhia de dança, vem aí o novo MAC... enfim, saí realizado e um tanto aflito, porque nos próximos meses o Andrea (Matarazzo) vai ter que terminar muita coisa.